Neste post vou falar um pouquinho sobre o meu processo de trabalho a partir de um assunto que despertou a minha inquietação no último INSPIRAMAIS: o tema HOMO FABER e que pra mim representa muito a imagem abaixo, e você logo vai entender o porquê dela aqui.

Homo Faber vem das palavras “homo” (homem) e “faber” (fabricar, fazer). É usada para descrever a capacidade distintiva do ser humano de criar, construir e fabricar coisas usando sua inteligência, conhecimento e habilidades técnicas.
E é sobre essa relação entre o desenvolver e o processo de fabricação que eu vou contar um pouco sobre como foi criar a luminária OJO com uma superfície em feltro sustentável para a Reveste Design e o porquê ela me lembrou muito a relação que foi feita entre o tema HOMO FABER e o processo de design do Inspira+.
1 _ O PROBLEMA DE DESIGN
A iluminação ou criação de uma luminária não era o problema de design em si. A criação da luminária foi consequência de um outro problema.
Dar uma nova vida aos resíduos têxteis que sobram da produção das roupas de cama da Reveste.

2 _ O QUE FAZER COM OS RESÍDUOS?
Os resíduos são basicamente ourelas e fios, e a ideia era criar uma superfície que aglutinasse isso, que funcionasse como uma “cola”.
Como os resíduos eram de fibras naturais, algodão e linho, o aglutinador tinha que ser natural também, para que pudesse se decompor junto com as fibras. Fechando o ciclo, como deve ser em um projeto de moda circular.
3 _ O “AGLUTINADOR” ESTAVA MAIS PRÓXIMO DO QUE EU IMAGINAVA
Confesso que antes de chegar ao aglutinante usado, eu pesquisei muito sobre colas biodegradáveis, bio-based.
Mas a pesquisa acabou seguindo outro rumo, e o processo passou a ser totalmente hands on: saí do computador e comecei a usar um material que muito já usei e um dia também fui ensinada a criar: a lã feltrada.
Abrindo um parênteses aqui: designers, saiam de seus computadores sempre que possível. Coloquem a mão na massa
4 _ A importância do HOMO FABER no desenvolvimento dessa superfície.
A primeira vez que coloquei as mãos na lã para feltrar, com muita água e sabão foi numa oficina em Portugal em 2007, com uma professora alemã.

Já experimentei muito com feltro. Diferentes tipos de tingimento, interação com tecidos, mas misturar resíduos ao feltro era uma aproximação que ainda tinha que ser desenvolvida. A primeira ideia foi inserir os resíduos internamente, como uma espécie de enchimento.

Mas a ideia não era esconder os resíduos, e sim dar evidência a eles.
5 _ EUREKA: a lã foi além do que eu imaginava que poderia ir.
Aos poucos esse resíduo foi se destacando em meio a lã, e eu fui abrindo mais espaço para ele.

Fui testando todos os limites da lã, até chegar a uma superfície em que há muito mais resíduo do que lã, e ela passou a ser uma substância apenas com função aglutinante.

Esse foi o momento Eureka. O alívio de ter encontrado uma substância que fosse:
- Aglutinante;
- Biodegradável;
- Térmica;
- e pudesse ser moldada em 3D;
6 _ Mais uma propriedade: o TRANSLÚCIDO
Depois disso, colocando a superfície contra a luz do céu, ficou clara a sua característica translúcida, exatamente como se vê na foto.

E depois testada aqui, num plafon que tenho em casa.

Mostrei para a Bianca, designer da Reveste e a vontade de criar uma luminária foi imediata. Ela como designer de interiores já bolou uma estrutura de luminária em madeira, que foi executada pelo Samuel da Sambi Makers, e foi então que veio um novo desafio: criar uma cúpula para aquela luminária.
Quando eu achava que o desafio já estava cumprido, veio o outro, a criação de uma cúpula inteiramente em feltro.
Cúpula = superfície tridimensional e redonda, que eu nunca havia criado.
Essa eu realmente nunca tinha feito. E não fazia ideia de como fazer. Mas depois de muitos testes, inclusive a primeira que quase me fez desistir, consegui chegar a uma cúpula redonda, feita inteiramente em feltro, com os resíduos, com efeito translúcido e que se sustenta sozinha. Sem arame algum para sustentação. Apenas a lã que se estrutura em suas próprias fibras.

6 _ Conhecimento técnico e práticas manuais + Um trabalho interdisciplinar
A superfície criada foi um somatório de muitas coisas e não começou do nada. Honro minha história e processos e sei que esse resultado começou lá em 2007, com a disposição pra aprender a feltrar num final de semana gelado (em que poderia ficar turistando por Portugal) onde as mãos e o ar esfriavam a água quente da feltragem na velocidade da luz + conhecimento técnico sobre o poder feltrante da lã que tive com todas as práticas de anos + muito hands on + a vontade de interagir manualmente com o material aglutinante + e, claro, o receio de tudo isso dar errado. A soma disso resultou na superfície brifada.

Até chegarmos à luminária, outro somatório: a Bianca que teve a sensibilidade de pensar em uma forma que “fechasse” com a estética da lã e dos resíduos + a produção da luminária imaginada pela Bianca e materializada pelo Samuel + a genialidade técnica em iluminação do Alexandre da Luz Feito a Mão.
Pra fechar essa News, que espero que tenham curtido:
O que entregamos para o mundo é um somatório da intensidade com que nos entregamos para o nosso aperfeiçoamento.
