Como os têxteis estão mudando o mundo

Esse foi o título de uma matéria da revista Surface Design lançada na primavera americana de 2013. A matéria tratou dos feitos na área da sustentabilidade, espacial, geotêxteis (usados na engenharia civil) e médica.

Confesso que o título da matéria me instigou e inspirou a escrever a Newsletter desse mês. Num momento tão reflexivo e introspectivo para todos, parece que o título da matéria foi um beliscão.

Todos os assuntos trazidos na matéria são pertinentes, mas um deles é urgente, e reforço a abordagem aqui, o da sustentabilidade. Além disso, apesar de muitas ações terem sido começadas, muito ainda há para se fazer, e por isso eu mudo o título do meu texto para:

Qual o potencial dos têxteis em mudar o mundo?

Talvez essa frase há pouco tempo não fosse tão urgente. Hoje é! 

A pandemia que (ainda ) vivemos hoje, segundo sugerem estudos (aqui cito apenas um deles), nada mais é do que reflexo da degradação ambiental. E, segundo site da ONU, para impedir o surgimento de novas zoonoses, doenças transmitidas de animais para humanos, “é fundamental endereçar as múltiplas ameaças aos ecossistemas e à vida selvagem, entre elas, a redução e fragmentação de habitats, o comércio ilegal, a poluição, a proliferação de espécies invasoras e, cada vez mais, as mudanças climáticas.” 

E qual a relação da indústria têxtil com todos esses problemas? Muitos! As indústrias de vestuário e calçados, juntas, são responsáveis por 8.1% dos impactos ambientais no mundo. Os principais responsáveis por esse impacto, que envolvem as mudanças climáticas, uso de recursos naturais, uso de água limpa, qualidade do ecossistema e saúde humana são as etapas de tingimento e acabamento, preparação de fios e produção de fibras. Os dados são do relatório MEASURING FASHION – Environmental Impact of the Global Apparel and Footwear Industries Study de 2018. 

Mas, com tantos pontos negativos, dá pra ver uma luz no fim do túnel?

SIM! (assim mesmo em bold, sublinhado e caps lock). Além de colocar o dedo na ferida eu quero compartilhar com você soluções que já estão sendo implementadas, e responder a pergunta que eu fiz lá em cima. E, na news de hoje, vou me concentrar na parte de tingimento e produção de fibras. 

O tingimento têxtil, sendo um dos processos mais poluentes dentro da cadeia têxtil, é uma das etapas que mais desperta interesse das empresas em melhorar o processo. Mas o processo de melhoria não é tão simples, pois existem exigências do mercado principalmente em relação a tonalidades.

Há soluções em escala industrial, que otimizam o processo, utilizando pequena quantidade de água e energia elétrica, e olha só que bacana: um dos métodos que começou essa nova jornada para o tingimento industrial sustentável, foi do Yeh Group, que teve como um dos integrantes da equipe de desenvolvimento, uma mulher, a pesquisadora Sophie Mather. A tecnologia que é utilizada pela DyeCoo, é aplicada matérias-primas sintéticas, e o princípio básico é a utilização do CO2 com alta pressão, que pode atingir diversas camadas de tecidos numa só vez.

Confere o vídeo com Sophie Mather

Outra alternativa ao tingimento industrial, é o feito pela Color Zen. A “sacada” da Colorzen, não está no tingimento em si, mas num pré-tratamento patenteado que o algodão recebe, que permite que a fibra absorva mais corante durante o tingimento, eliminando a necessidade de aditivos químicos tóxicos para fixação, segundo a empresa. Em comparação com o tingimento de algodão comum, utiliza até 95% menos produtos químicos. O uso de água diminui em até 90%.

É claro que a quantidade de corantes muda muito em função da intensidade da cor. Quanto mais intensa e saturada a cor, maior a necessidade de corantes. O site da empresa mostra uma simulação bem legal, que você mesm@ pode fazer, mostrando o quanto de água é necessário para tingir uma calça em diferentes tonalidades.

Acessa o site da Color Zen, e faz uma simulação, como eu fiz aqui com uma calça. Observa a quantidade de litros de água, energia e produtos químicos!

Tingimento da calça com baixa intensidade de cor. Fonte: Colorzen

Tingimento da calça com alta intensidade de cor. Fonte: Colorzen

E, na disputa pelo título de etapa da cadeia com maior impacto ambiental junto ao tingimento, está a produção de fibras, e um dos principais responsáveis pelos altos impactos dessa fase da cadeia no meio ambiente, é o algodão.

Aqui, como alternativa ao algodão tradicional, poderia citar o algodão orgânico, mas vamos além. Vamos falar em novas fibras, porém, criando-as a partir de matéria-prima já existente, sem usar matéria-prima virgem.

Existe a possibilidade de reciclagem das fibras de algodão (mecânica) mas também processos novos, como a reciclagem química, que é o caso da fibra Infinited Fiber, feita a partir de fibras de descarte como a viscose e o algodão. Apesar do algodão ser uma fibra renovável, aqui reutiliza-se uma fibra que já foi usada, evitando-se que seja dispensada em um aterro sanitário.

Confere abaixo o vídeo para entender mais sobre a fibra!

E a proposta da Infinited Fiber, é que a fibra seja reciclada quantas vezes for desejado, sem perder a qualidade, infinitamente, daí vem o nome da fibra: infinited fiber. Mas a empresa promete que o processo de produção é diferente da viscose, que tem fama de ser altamente poluente.

Da polpa à fibra: o processo da Infinited Fiber. Fonte: Infinited Fiber.

Sobre a produção, segundo dados da empresa: por quilo, utiliza vinte mil litros de água a menos que o algodão, e usa menos água que a viscose. A produção é considerada carbon positive, que significa que a produção de gás carbônico é zero, ou próximo de zero. Sobre produtos químicos, uso reduzido, assim como água e energia, pois possui alto poder de absorção de cor 30 a 40% maior que o algodão.

E olha que bacana: A empresa está em busca de novos parceiros e quer que a tecnologia seja amplamente utilizada. A produção é facilitada para empresas que já produzem a viscose, pois é utilizado o mesmo maquinário de produção, e ainda se livram do dissulfeto de carbono que é o produto químico mais perigoso no processo de produção da viscose.

Tomara que a forma como a Infinited Fiber pretende compartilhar a tecnologia evite problemas que muitas empresas enfrentam quando estão disponibilizando um novo produto com uma nova forma de fazer, por um simples fato: quando a tecnologia é recém lançada, e poucas empresas aderem, ela acaba se tornando cara, pois os custos de desenvolvimento não se diluem. Inclusive, encontrei uma matéria do The Guardian que fala exatamente sobre isso: a dificuldade de introduzir um novo produto ecológico em função da precificação.

E então, será que começamos a responder a pergunta que fiz lá no início da Newsletter?

E, por que eu trouxe exemplos de tecnologias aparentemente simples que podem ser trazidas para o dia-dia? Simples: sendo o poliéster e o algodão as principais fibras usadas no mundo e as com maior potencial poluente, porque não começar por elas? Seja no tingimento, seja na produção, a probabilidade de reduzirmos o impacto é BEM MAIOR!

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