É só entrar no “The Experience” sediado no Hub Fashion For Good, em Amsterdam, que a sensação é a de que estamos frente ao que esperamos do futuro da moda como bons consumidores que somos, ou que deveríamos ser. Passado, presente e futuro estão lá, trazendo ares esperançosos de mudança, ou colocando o dedo na ferida do consumidor.

No andar sobre o “passado”, cito aqui entre aspas pois ainda é a realidade atual, são mostrados os malefícios de cada etapa da cadeia, desde o uso de pesticidas no cultivo de fibras, até a aquisição e uso irresponsável do vestuário por parte do consumidor, passando, inclusive, um pouco da responsabilidade ao visitante. Sobre o presente, apresenta-se o que já conhecemos sobre o uso de materiais reciclados, corantes vegetais e materiais orgânicos.
E sobre o futuro, o que vem por aí? Bem, aqui trago dois pontos. O primeiro: muito do que se profere como futuro, já é realidade, ao menos em muitos países. Mas então porque são uma projeção de futuro das fibras sustentáveis?
As tecnologias mudaram, evoluíram, e hoje, fibras que eram usadas apenas como enchimento por exemplo, estão sendo usadas para produzir fios. É o exemplo do Kapok, conhecido aqui no Brasil como Algodoeiro, Mafumeira, Sumauma, entre tantas outras denominações. Você inclusive já deve ter esbarrado por alguma na vida. Elas chamam a atenção principalmente nessa época do ano, na primavera, quando seus frutos “explodem” e as fibras ficam visíveis.
Você inclusive deve ter se perguntado, “essa árvore produz algodão?” ou “será possível usar essa fibra como matéria-prima para produzir fios”? Essa resposta não é simples, e depende muito da tecnologia utilizada. Produzir um fio a partir da fibra do Kapok, até pouco tempo era inimaginável. Hoje já é possível, muito em função da tecnologia de fiação que evoluiu, mas, mesmo assim, ela ainda é usada em fios/tecidos mistos, junto a outras fibras para garantir maior resistência.
A grande sacada de uso dessa fibra e que coloca ela como potencial fibra do futuro, é que a sua produção é sustentável, por isso os investimentos e tentativas de trazer ela para a área têxtil.
A árvore não precisa de irrigação artificial, nem de fertilizantes e pesticidas. Inclusive, se você chegar perto de alguma, e olhar o tronco, vai ver uma série de espinhos que evitam a passagem de bichos/pragas para a cúpula. Agora falando especificamente sobre a fibra, tem ótimas propriedades: leveza, isolamento térmico, é antiácaro e antitraça, possui secagem rápida e toque parecido com o da seda. Então, tudo leva a crer que, se você tem uma árvore dessas no quintal de casa, assim como eu, você está próximo de uma fibra sustentável do futuro.

Segundo ponto que trago para reflexão: muitas matérias-primas que serão usadas no futuro, vêm dos resíduos da indústria alimentícia.
Se você for até o lixinho da sua cozinha agora, provavelmente você encontrará uma matéria-prima do futuro. Isso mesmo!
Existe uma forte tendência de transformação de resíduos têxteis em fibras, nesse caso, em filamento, pois esse resíduo se transforma numa fibra química/artificial.
No caso do aproveitamento do resíduo alimentar para fabricação de fibra, dá-se um novo destino para o lixo que seria queimado, ou jogado em aterros sanitários, produzindo gases perigosos, como é o caso do gás metano.
Falando assim, pode parecer fácil, mas não é. Há muita pesquisa, dedicação e tempo por trás. Trago o exemplo da Pellemela, produto da Frumat, marca que faz os seus substratos a partir do bagaço e cascas da maçã. Para se ter ideia do tempo que levou desde o surgimento da ideia até o material ser acessível às indústrias de moda, pode-se dizer que levou aproximadamente dez anos.

Foi em 2004 que o engenheiro italiano Alberto Volcan se deu conta que os resíduos das maçãs poderiam render outro negócio além de frutas e biogás. Em 2009 iniciou as pesquisas e uns cinco anos depois, começaram a aparecer os primeiros resultados. Hoje a Frumat produz um material feito a partir do bagaço e da casca da maçã que, junto ao poliuretano, possui potencial de substituir o couro, e amenizar o problema do lixo na região.
Percebeu que o que mais falei sobre fibras do futuro está mais perto da gente do que imaginamos? Basta olhar para os problemas ao nosso redor, e ver neles uma possibilidade de solução para outros problemas ou oportunidades de mercado, e, claro, não somente ter grandes sacadas, mas se dedicar a muita pesquisa!
*O Museu The Experience possui exposições temporárias e fica dentro do Hub Fashion for Good, em Amsterdam. A visitação é gratuita.
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